30/06/2009, por Rafael Koelho
...is never boring?
Assim que terminanos nosso show, descemos do palco, escondemos nossos instrumentos ao lado da outra centena de parafernalhas que havia no local e fomos conhecer melhor o galpão. No fundo, um espaço aberto com duas mesas de ping-pong, onde o Barata parou e ficou (ele é viciado nessas coisas, desde o colégio, mesma época onde até ganhou um Campeonato de Iô-Iô da Coca-Cola, lembram disso?). Eu e Rudá fomos nos abastecer de cerveja e cigarros, enquanto outras bandas faziam seus shows. Aproveitamos para espalhar alguns cds, uns vinte, nas barraquinhas de sites e de merchandising que instalaram por lá. No final dos dois dias, vendemos cinco, e acho que ainda perdemos outros dez.
Naquela primeira noite, a banda que iria fechar os serviços era o Blind Pigs. Não é preciso dizer o quão ansioso o público estava para vê-los: quase não tocavam no sul do País naquela época, e poucas eram as bandas tão respeitadas no cenário quanto os futuros Porcos Cegos. Respeitados e polêmicos, mas isso não cabe a mim comentar. Quando eles subiram no palco, por volta de 21:30h, muitos dos que foram para ver o show do quarteto já tinha ido embora. Quem ficou, teve de aguentar oito bandas que não os interessavam, na grande maioria, entre elas, nós. Lembro que o Gordo (guitarrista do Blind Pigs) afinou a guitarra, o Mauro (baixista) tomou alguns goles da cerveja enquanto todos se ajeitavam no palco de 10x7 e a galera gritava os nomes das músicas que queriam ouvir. Quando o Henrike (vocalista) subiu ao palco, o público ficou alvoroçado - até demais, diga-se de passagem. Começaram a tocar seus sons, os clássicos, e em menos de 10 minutos de apresentação, cortaram o áudio do local. O técnico de som desligou tudo, dizendo que já passaram das 22h e que, segundo a organização do evento, aquela era a hora de acabar (se não me engano, respeitando o horário de silêncio, mesmo o show sendo feito em um bairro longe de qualquer residência).
O problema é que não avisaram as bandas que tocaram antes desse detalhe. Também não avisaram o público, que não gostou nada de ver seus R$ 25 gastos com alguns minutos de punk rock. Abaixo de vaias, o técnico voltou a ligar os equipamentos e o show prosseguiu... por mais 5 minutos. Para piorar, dessa vez, ele desligou o som no meio de uma música famosa dos Porcos, Conformismo e Resistência. Foi a gota d'água. A banda e o público começaram a xingar o empaca-foda, que se revoltou e se encostou na cabine de controle, deixando o inferno pegar cada vez mais pressão. Resultado: o público se revoltou de vez, subindo no palco, gritando, pulando e derrubando boa parte da estrutura do palco - não caiu com o peso de ninguém, caiu porque derrubaram tudo, a chutes e empurrões. Luzes do palco foram ao chão, assim como altas e pesadas vigas de metal que as sustentavam. Num piscar de olhos, as portas do galpão foram arrombadas pela tropa de choque de Curitiba (que eu não sei o nome).
Os policiais entraram do mesmo jeito que todos nós já vimos nas ruas ou, apenas - e por sorte -, na tv: em marcha lenta e ritmada, batendo com os cacetetes nos escudos e, alguns, entoando ordens. Alguns policiais subiram no palco e deram voz de prisão aos integrantes do Blind Pigs, dizendo que eles haviam incitado a violência e a baderna generalizada. Salvo de qualquer coisa, eu concordo em partes, e descordo em muitas outras. Na correria, muitos levaram pancada, outros foram imobilizados e outros, babacas como eu e o Barata, ficamos olhando tudo sem muita ação. Acabamos sendo levados por dois policiais para fora do galpão, colocados lado a lado com outros "presos", inclusive, gente do Blind Pigs (que vou me reservar a não dizer quem) e que estava apanhando muito: tapa na orelha, cacetada nas costas, chutes. Isso, imobilizado. Segundo os guardas, nós éramos "tudo marginal, punk, bandido" e cara de mamão.
Olhei para o Barata e disse: "Cara, nos fudemos". Não sei se meu maior medo era estragarem meu baixo ou minha cara, mas seja lá o que fosse, não estava nos meus planos. Mas, não antes do meu desespero terminar, como em um filme, aparece o Rudá, livre, leve e solto, meio que nos puxando pelo braço daquela seção de espancamento e conseguimos fugir. Corremos os três em disparada para dentro do ônibus da turnê, onde outras bandas também foram se enconder. Da janela, vimos gente correndo e apanhando, policiais jogando os cachorros em cima de alguns e a guitarra do Gordo, uma Gibson SG aparentemente nova, sendo batida contra a parede por um dos policiais. Nos escondemos atrás de uma pilha de amplificadores no fundo do ônibus, porque outros guardas vieram ver quem estava no meio da confusão e tinha ido se esconder. Não aconteceu nada conosco, mas por pura sorte.
Chegamos no hotel bastante atordoados. O organizador da Feira Mix, o gordinho filho da puta, foi com a mãe para a delegacia responder às queixas. Na mesma delegacia, Mauro foi detido e lá passou o resto da noite. Demos uma volta pelo centro da cidade, tomamos uma ou duas cervejas, vimos uma briga entre duas moradoras de rua e voltamos. Eu fui tomar um banho, o Barata ficou vendo tv no quarto e o Rudá saiu com o pessoal do Questions e Food 4 Life para conhecer as casas de diversão de Curitiba. Aproveitei o momento para dar uns goles na garrafa de Dreher dele e desmaiei na cama. Nem percebi quando o Rudá chegou e deitou, de calça jeans, jaqueta de couro e boné dos Yankees. Na manhã seguinte, ao acordar, desci até o saguão para saber se tinham novidades sobre o Mauro e a confusão toda. Encontrei o Rudá, já desperto e de óculos escuros, conversando com Nenê, vocalista do Dance of Days.
O DOD só chegou para a turnê na madrugada de sábado para domingo, pois tiveram show em outro lugar antes. Quando o Nenê ficou sabendo do que tinha acontecido na primeira noite do show, deu para perceber a cara de espanto do cara, totalmente justificada. Apareceram umas garotas do fã clube da banda por lá, eles saíram para comer e, em pouco tempo, voltamos para o ônibus mais uma vez, dessa vez de malas prontas, pois após os shows nós já voltaríamos para São Paulo. Vale pouco falar sobre o segundo dia de shows. A única coisa bacana, foi que saímos do galpão para comer um lanche em uma barraquinha que ficava do lado da pista de kart, e uns fãs do Seven Elevenz apareceram: três machos, pra variar. Eles disseram para nós que estavam montando uma banda de ska, mas que ainda não tinham escolhido o nome. O Rudá, de brincadeira, sugeriu um daqueles nomes bobos e lógicos para bandas desse estilo: Skadabaixo. Uns dois meses depois eu vi uma foto do Skadabaixo na PunkNet.
O show, nesse dia, acabou na hora certa - 22h. Também, pudera. Assim que o DOD saiu do palco e arrumou as coisas, começou outra confusão: o gordinho filho da puta não deixou que eles voltassem para SP com o resto das bandas, pois, segundo ele, só poderia voltar de ônibus quem tivesse ido nele - acho que só fomos a exceção por erro dele mesmo. Entrei no ônibus, coloquei uma música para tocar no walkman - sim, walkman - e dormi. Acordei umas três horas depois, ainda na "estrada", já que o motorista "Feliz" havia saído da pista, ido para o mato e eu acordei com o solavanco. Ninguém morreu na volta, graças a Joey.
Já em São Paulo, dias depois da viagem da agonia, o Blind Pigs postou no site oficial uma nota sobre os acontecimentos em Curitiba. Criticaram, e com razão, a organização do local, do gordinho filho da puta e da polícia paranaense. Eu, claro, postei lá também o meu apoio. E adivinha quem veio reclamar disso para mim? El gordito hijo de puta. Disse que iria processar o BP e que eu estava falando sem saber o que realmente tinha acontecido. Mandei, de forma gentil, ele e sua mãe tomarem no meio do cu e nunca mais quis saber dos dois. O Barata ainda participou de outra Feira Mix depois, em Belo Horizonte, com os Trapizombas, onde não houve nada de errado. O gordinho faliu poucos meses adiante, junto da mamãe e das dívidas que ambos fizeram ao longo dos anos promovendo eventos furados.
É por isso que eu digo: Quem tá no rock é pra se foder.